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Mensagempor timoteo » Terça Fev 09, 2010 10:12 am

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O australiano bicampeão mundial regressou à competição o ano passado e, nas vésperas da competição de Pipeline, aceitou responder a uma entrevista do Palavras de Sal. As aspirações a um terceiro título, o novo patrocinador, as novas pranchas, as polêmicas declarações que foram interpretadas como críticas aos bodyboarders portugueses do circuito, as aspirações, os medos e a filosofia de vida de Damian King.


PALAVRAS DE SAL - Pipeline está aí e com ela, toda uma nova época competitiva. Quais são as tuas expectativas para a nova temporada, tendo em conta que voltaste o ano passado à competição?


DAMIAN KING - Tenho expectativas altas. O ano passado só queria chegar ao top 16, este ano, quero ganhar outro título. Com tudo, ainda não está no top 16 (ainda estou em 31), por isso vai ser mais difícil. Mas estou determinado a tentar de qualquer maneira.


PDS – A época passada pareceu, por vezes, que tiveste dificuldade em fazer fluir o teu surf. Pareceu também haver muitos fatores a contribuir para isso. Mas o que se passou, realmente? Formato da competição, o nível da concorrência, os critérios de julgamento, qualidade das ondas?


DK – O formato da competição é bom, o nível da concorrência melhorou. Se levares em conta as pontuações médias nos últimos 4 anos, temos de assumir que subiram muito. O critério de julgamento é, por vezes, discutível, mas normalmente estão certos. Parece apenas que todo o esforço extra que se faz para fazer uma manobra parecer fluida e suave não é levado em conta. Parece que se um atleta fizer uma manobra limpa e com estilo técnico, e o outro fizer a mesma manobra, mas um pouco forçada e sem controle, têm ambos a mesma nota. A qualidade das ondas foi, provavelmente, o maior obstáculo para mim. Eu sou apaixonado no que toca a surfar em boas ondas. Locais de prova com ondas más são o maior desafio para mim, mas nem por isso, um desafio inspirador.

PDS – O que é que mudou no bodyboard desde que foste campeão?

DK - As provas que eu ganhei foram o Tahiti (Teahupoo), Shark Island, Sintra e Pipe. Se não conseguisses surfar ondas pesadas, não tinhas hipóteses. Agora, há muitas mais provas com ondas pequenas e, acho mais acessíveis para os competidores. Além de que acho que os atletas que se dão bem nestas provas são muito bons em ondas pequenas e é difícil batê-los.


PDS – Como é que tens treinado para Pipe?


DK – Tenho treinado muito duro para esta prova, essencialmente com um novo regime de flexibilidade, mergulho e musculação. Além disso, ter novas pranchas da Turbo foi o maior empurrão. Há muito tempo que não tinha pranchas boas e tê-las de volta é como um sopro de ar fresco.


PDS – Para quem não conhece bem a realidade do bodyboard, parece estranho que não haja períodos de espera decentes nas competições e que a IBA tenha a perna européia do circuito agendado para o verão do hemisfério norte. Como é que explicarias isto a quem não conhece os intrincados mecanismos da IBA? E, pessoalmente, achas que tem de ser assim?


DK – Penso que o nosso desporto tem de começar a cortar em provas com ondas medíocres. O objetivo deveria ser locais com boas ondas, que representem o pináculo do bodyboard de alta performance.


PDS – Passas muito tempo à procura de boas ondas e construíste uma reputação a surfar algumas das ondas mais pesadas do planeta. Como é que te motivas para surfar algumas das ondas do circuito, que não correspondem a esse perfil?


DK - É difícil, mas eu gosto de ganhar. Eu surfo essas ondas porque sou competitivo e quero ganhar. Sim, gostaria que houvesse melhores ondas e isso me frustra, mas há coisas que temos de fazer porque tem de ser.


PDS – 2010 vai ser um ano bastante excitante para Damian King. Vais ser pai. Como é que isso está a afetar-te mentalmente? Está a mudar a tua percepção das coisas, por exemplo, na forma como corres riscos em ondas pesadas?


DK – É uma questão interessante e, sinceramente, só vou poder responder quando acontecer. Mas não me arrependo minimamente. Sempre acreditei profundamente que não se deve deixar o medo impedir-te de progredir. E quero que os meus filhos tenham a mesma filosofia. Isto significa que tenho de dar o exemplo, o que significa não mudar aquilo que sou. O medo pode impedir as pessoas de fazerem tanta coisa, e se eles não deixarem o medo brincar com as mentes deles, as suas vidas podem ser significativamente diferentes. Se eu morresse amanhã, os meus filhos saberiam aquilo que eu defendia e, espero, compreenderiam. Eu sei que isso poderia significar crescer sem um pai, mas, ao mesmo tempo, morrer a fazer o que se adora não é uma má maneira de partir.


PDS – Falando de riscos, há um momento emblemático no filme Joker 2 onde surfas “The Right”. Mas disseste-me que isso foi logo após uma lesão bastante séria. Conta-nos o que se passou; a recuperação e os detalhes dessa sessão.


DK – Magoei as costas gravemente em 2008, a surfar uma onda pequena, perto de casa. Fiz uma ruptura de 4 mm num disco de uma vértebra e nem podia andar. Em 3 meses passei de estar imobilizado na cama até à reabilitação. Ninguém pode perceber, realmente, o que passei, mas foi infernal. Quando estava cerca de 70% recuperado vi que um swell de 8 metros ia atingir o Sudoeste da Austrália. Sabia que ia fazer outro Joker e sabia que esta sessão iria tornar o vídeo especial. Apanhei um avião, enfaixei as costas e tomei uma dose cavalar de analgésicos (para o caso de as coisas correrem mal). Apanhei a corda de tow in e cruzei os dedos à medida que dropava os monstros. Valeu à pena e não deixei o medo deter-me. Quando vejo o filme apenas solidifica os meus princípios.


PDS – Surfar ondas grandes e perigosas é um negócio arriscado. Quanto é técnico, físico e mental?


DK – É tudo isso. Precisas saber usar as pernas quando estás a surfar ondas grandes. Tem a ver com controlar a tua linha com as pernas e escolher os ângulos corretor. Tem mais a ver com sentir a onda do que qualquer outra coisa é como se desligasse e deixasse tudo acontecer. Mentalmente, se não estás concentrado na sessão, então não estás lá. Nada a fazer. Já tive sessões em que tive medo com 6 pés (cerca de 2 metros), não sei porquê, e depois, há outras em que as ondas estão com 15 pés (mais de 4,5 m) e quero maiores. Penso que, ou ver as ondas e saber que é o teu tipo de onda, e a fome mata todas as outras emoções, ou não estás com o estado de espírito certo e nesse caso... Mas tudo bem, se a pessoa não tem a fome de tentar, não tenho nenhum problema com isso, não acredito em forçar as pessoas a fazer algo que não querem. Surfar tem tudo a ver com desfrutar o prazer e com adrenalina. Mas se preferirem o lado mais prazenteiro da coisa, para mim, é bom na mesma.


PDS – Com tanta experiência, ainda tens medo?
DK – Sim, às vezes. Pipe grande assusta-me.


PDS – Qual foi o maior susto em ondas?


DK – Quando Pipe está maciça e fora de controle, com ondas por todo o lado e quase ninguém na água, Já vi alguns tipos morrerem ou serem massacrados seriamente ali.


PDS – Haverá um Joker 3? Para quando?


DK – Sou apaixonado pelos Jokers e não quero fazê-los por fazer. Têm de ser inspiradores, por isso vamos ver o que acontece nos próximos anos. Gosto de pensar que haverá mais.


PDS – Assinaste recentemente com a Turbo. Qual foi a principal motivação para o fazer?


DK - Há três razões principais: Antes de mais nada, o respeito que tenho pela empresa. É uma empresa internacional mas sediada na minha cidade natal. Tenho-os visto crescer cada vez mais e com ética, no melhor interesse do desporto. A segunda razão são as pranchas; sabia que se assinasse contrato com eles, voltaria a ter boas pranchas e isso, para mim, significa muito. Podes treinar o quanto quiseres, mas se não tens confiança nas tuas pranchas, isso não significa nada. Em terceiro lugar, estou melhor financeiramente. Fazer o circuito mundial custa muito dinheiro e a Turbo vai apoiar essa causa mais que o meu ex-patrocinador.


PDS – Falando de pranchas, qual é a tua prancha ideal atualmente?

DK – Voltei à mesa de desenho. Estou com a mesma prancha com que ganhei os títulos mundiais. A mesma curva, o mesmo shape e sim, o “bat tail”. Gostei de surfar com crescent, mas as pranchas não eram tão rápidas e soltas. Isto, combinado com o concave, dá à prancha velocidade, reatividade e, quando é preciso, a aderência à parede da onda. É perfeita e não sei por que é que mudei...


PDS – Porquê a mudança para bat tail? Achas que a loucura com o crescent é só marketing? Porque temos visto nomes como Mike Stewart, que andavam de bat há anos, regressar ao crescent...


DK – Não sei. Para ser sincero, às vezes as pessoas são como as ovelhas. Eu próprio já cometi esse erro. O crescent funciona para algumas pessoas, mas o bat parece-me muito mais rápido. Acho que se usas bat tens de ter concave. Percebo que um bat tail possa ser super solto para a maior parte das pessoas, mas o concave equilibra esse efeito na perfeição.


PDS – O que é que achas do nível dos riders portugueses? É que, recentemente, houve alguns excertos do teu blogue que foram interpretadas como comentários negativos à habilidade dos portugueses em mar grande...


DK – Para ser sincero, não tenho visto muitos portugueses em ondas grandes, mas porque os eventos têm sido maioritariamente em ondas pequenas. Isso não quer dizer que eles não prestam ou que não surfam mar grande. Não posso comentar algo que desconheço. Tipos como o Rui Ferreira “ripam” em ondas grandes, e também vi alguns portugueses na Grande Canária o ano passado, quando estava grande e eles pareciam mandar-se.


PDS – Já surfaste mais algum spot em Portugal além de Sintra?


DK – Não.


PDS – Quem são os riders que gostas de ver surfar hoje em dia?


DK – O Mitch é bom e também gosto de ver o Tâmega. Acho que o Tamega é o bodyboarder mais excitante de ver ao vivo. Todos os riders de topo têm qualquer coisa especial, como o Ben Player com os seus backflips, os aéreos do Hubb ou o estilo do Mitch. É só uma questão de conjugar tudo.


PDS – Ainda ficas surpreendido com as apresentações na água dos tipos do Circuito?


DK – Sim, não acredito nos backflips e ARS que alguns tipos fazem em ondas pequenas. É incrível. E no Chile, este ano, vi coisas loucas nas ondas grandes, também. Não sei como é que fazem ARS em ondas de 8 pés (2,5m), parece que dói...


PDS – E quais são os teus favoritos de todos os tempos?


DK – Tâmega, Hardy, Mitch, Nugget e agora ando a gostar muito de um australiano chamado Joe Clark.


PDS – Quais os teus objetivos esta época? E vais abandonar caso não os atinjas?


DK – Tenho um fogo dentro de mim. Se ganhas um título mundial e voltas à cena, queres ganhar outra vez, é natural. E é onde tenho a cabeça agora. Penso que a única coisa que me pode deter é a adaptação a ondas pequenas e surfá-las melhor que todos os outros. Os backflips também têm sido um obstáculo, mas penso que, nas direitas, já os consigo sacar em praticamente todas as condições, por isso só faltam às esquerdas. Dito isto, penso que progredi muito nos últimos seis meses e desde que estou com as pranchas novas, sinto que o meu surf está mais veloz. Tenho algumas coisas que vou fazer de forma diferente e penso que isso vai marcar pontos a meu favor. E outra coisa que também precisas é de um pouco de sorte. Às vezes, precisas que algumas coisas funcionem a teu favor, como um set que aparece quando precisas, ou aquele 0,05 que te separa da concorrência. Creio que o ano passado não teve muitas oportunidades e espero que este ano haja alguma sorte do meu lado. Um pouco de sorte é muito importante num cenário de competição. As ondas de set têm muito peso no juízo (talvez demasiado, em minha opinião) e se não as apanhas, então podes fazer as melhores coisas do mundo que não vai ajudar. E os sets têm qualquer coisa de sorte por isso... Preciso de alguma do meu lado.


PDS – Em suma, podemos contar com Damian King a lutar pelo título de campeão mundial IBA em 2010...


DK – Nahhh, nada disso, só quero colecionar umas lycras de competição...

fonte: Palavras com Sal
timoteo
 
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