O Big. A história de um surfista com alma de bodyboarder.

André Alves, 22 de Maio de 2017

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Todos nós temos aquele amigo surfista que um dia já foi bodyboarder e em quem permaneceu o gosto pelas ondas pesadas, ocas e tubulares, como nós tanto gostamos.
A minha adição ao mar e ao bodyboard deu-se, muito por causa de um grupo de locais de Afife, em especial dois irmãos, que me acompanham dentro de água até hoje. Pedro, ou melhor, Conguito para os amigos e Edgar. O primeiro bodyboarder e o segundo surfista.

Se o Conguito na altura já partia a louça, devo dizer que o Edgar me mostrou a evolução mais rápida de apenas um surfista em fase de iniciação, para um surfista completamente à vontade em mar mais exigente.

Não havia lineup em que os irmãos não estivessem e o Edgar era muitas vezes o único surfista entre bodyboarders. Não lhe fazia grande diferença, desde que no fim lhe disséssemos que tinha “mandado muita água na rasgada”.

Em sessões pesadas e desafiantes víamos frequentemente o Edgar a dropar uma, duas, três vezes de boca e a voltar ao pico de sorriso rasgado. “Este gajo é doente dizia-me o Conguito a rir-se”. E era. Doente pelas ondas, completamente fanático dentro de água, com uma presença intensa no lineup.

Certo dia partimos para os Supertubos, onde decorria nesse fim-de-semana, o campeonato universitário, o mesmo em que o Conguito acabaria por limpar a concorrência e levar a taça para Viana. Mas tudo começa bem antes disso, com o Edgar eliminado da divisão de Surf apesar de uma boa prestação no seu heat, volta à areia não muito preocupado e diz-nos “vou ali pró free surf, tenho de treinar o meu grab”. O mar tinha crescido, viam-se boas ondas mas fechava um bocado.

Decidi acompanhá-lo, afinal como bodyboarder faço “grabs” obrigatoriamente em todas as ondas, talvez possa convencer este marmanjo a admitir que o bodyboard é o melhor veículo para surfar estas condições.

Entra o set nos Super, vemos a montanha a vir ao longe, avança veloz e furiosa, não dá para perceber se vai ser boa ou closeout, vejo um surfista bem posicionado no pico, começa a remar para a primeira onda. É o Edgar, “este gajo tá cheio de moral” penso para mim, o crowd puxa por ele e dá-lhe o impulso que faltava pra entrar na onda.

Depois de segurar um drop vertical, eis o famoso “grab” no bottom da onda, está completamente lá dentro, e é um salão que mete respeito!!! Foi a partir deste momento que passei a tratá-lo por Big! Numa alusão jocosa aos big riders havaianos. Fico ansioso para congratular o homem, mas dez minutos depois nem sinal dele, uma hora e ainda nada. “O gajo saiu extasiado só pode…” pensei.

Passam umas horas e é a minha vez de sair, ao chegar à areia dou de caras com o Conguito em pânico, logo após sair do seu heat, “disseram-me que o meu irmão partiu a boca toda, veio a ambulância busca-lo à praia”, diz-me, “tás a brincar?! Tava com ele na água, não me apercebi de nada…”.

Bom, partir a boca toda foi um pouco exagerado, mas digamos que se naquele momento o Edgar quisesse um piercing não havia necessidade de fazer o buraco, porque já estava feito.

Nisto, vejo o Big de volta à praia, cheio de papel na boca e só me ocorre perguntar-lhe “Que te aconteceu pá, a onda foi linda?!” “Foi linda o car***o!” responde-me irritado. “Fiz o drop, depois o grab e quando dou por ela levo com o joelho na boca! Devo ter dado duas cambalhotas completas dentro do tubo!”, não pude conter o riso ao ouvir o estrago provocado pelo famoso grab.

Esta não foi a única vez que o Big visitou o hospital de Peniche, porque um ano mais tarde iria voltar aos seus cuidados, desta vez cravado de ouriços nos pés depois de sair de um heat em Lagide. “Sofri muito em Peniche” como me confessou uns tempos mais tarde em tom nostálgico embora divertido.

Passaram-se anos sem ver o Big na água, os relatos que me chegavam eram de que tinha virado workaholic, não tinha mais tempo para surfar, um destino habitual e recorrente. Até que me mudo para Lisboa em trabalho. Ouço maravilhas de uma pérola na Margem Sul, o paraíso do bodyboard da capital, carregado de boas ondas, mas igualmente de tensão na água e localismo.

As previsões são demasiado boas para pensar nisso, vou arriscar e conhecer a famosa Cova do Vapor. Entro com calma e espero a minha vez. O mar tem bom aspecto, mas o crowd já é mais que muito, decido remar para um pico mais lateral e eis que me deparo com o que parece ser um foco de tensão, mas não, é apenas um surfista irritado, aos berros por ter falhado o drop num triângulo feito para Bodyboard!

“Este gajo deve ser manda-chuva aqui, pela forma como se atirou a um triângulo de 2 metrões numa prancha de Surf” penso para os meus botões. “Epá mas eu conheço esta cara, não pode ser possível…”. Entretanto, o surfista já tinha mudado a postura e por esta altura ria-se para mim enquanto me pergunta “O que tás a fazer na minha casa pá?!”.

Quem era, vocês já terão, por certo, adivinhado. Para mim vai ser sempre o Big, o surfista com a alma mais bodyboarder que tive a oportunidade de conhecer.

Foto: Indodreams

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