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Entrevista Mike Stewart

Discussão Geral!!

Entrevista Mike Stewart

Mensagempor Noisia » Segunda Jan 11, 2010 10:34 am

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Tenho de começar este artigo com uma nota pessoal. Estiveram cá os
melhores surfistas do mundo, e não foi fácil para ninguém trabalhar com
ASP e com os surfistas para conseguir as melhores condições para
entrevistas, entrevistas sérias, de meia hora a quarenta e cinco minutos.
Estávamos esperançados de que conseguiríamos o Kelly para completar
uma entrevista que tínhamos feito com o Mike Stewart, há uns meses na
Praia Grande. Oueríamos fazer uma edição chamada Reis e Deuses, em
que na capa e na contracapa apareceriam Slater e Stewart, com os dois
a falar um do outro. Sonhos altos, diriam uns, os menos ingénuos, com
certeza, mas quando se faz uma revista bem de se sonhar um pouco...
Veio a verificar-se que é mais fácil obter uma audiência particular com o
Papa do que com o Kelly, o que não tem problema, nem todos queriam
perder tempo com uma revista de surf de um país pequeno, e se o Papa é
o representante de Deus na terra, o Kelly é um deus a representar um
humano no mar. Tivesse eu entrevistado o Kelly Slater e, provavelmente,
teria chegado ao topo da minha carreira como jornalista de surf, o
pináculo, tinha entrevistado a sua maior lenda viva, como um jornalista
de cinema entrevistar o Orson Welles e o Marlon Brando, como um
jornalista de futebol entrevistar o Maradona e o Pele, de automóveis
seria um Schumacher, no basquete o Michael Jordan e o Kareem Abdul
Jabbar. Assim ainda terei muita escada para subir...

Na primeira entrevista que faço a um bodyboarder, quem é que me calha no
prato? 0 Mike Stewart. É verdade, começar no topo não deixa de ser
divertido, até porque o Mike Stewart foi mais fácil de entrevistar que um
surfista médio nacional, onde por vezes ainda tenho de passar pelo
patrocinador...
Chegamos ao pé de Mike Stewart e perguntamos-lhe, podemos fazer-lhe
firmeza. No dia seguinte, depois da bateria, o nove vezes campeão do
mundo saía da água chateado com uma derrota prematura que lhe punha
em risco a luta pelo título. Ele olha para nós e não nos diz nada, ficámos
perto da tenda dele, a olhar para o mar, já um pouco desanimados.
Passados 10 minutos, já vestido, vem ter connosco para nos perguntar
onde é que queríamos fazer a entrevista. Uma lenda viva do mundo dos
desportos aquáticos deu-se ao trabalho de nos ir procurar, e ensinar,
para quem quisesse ver, ou quem queira ler, a maior lição de humildade e
carácter que um homem pode dar, mesmo face a uma denota
desconfortável, e sem insistirnos com ele, o homem aparece. . .
Passados uns largos mesas, fomos para a Nazaré, ver alguns dos
melhores surfistas do mundo desafiar um dos maiores beachbreaks do
mundo. 0 Mike Stewart estava lá, lembrava- se de nós, conversamos um
bom bocado sobre as condições, a Nazaré, os bodyboarders
portugueses e vimos um Mike Stewart feliz. acompanhado dos seus
filhos e de sua mulher a apanhar ondas extraordinariamente difíceis, e
desafiadoras, bem ao seu gosto.
Segue nas próximas paginas a entrevista com ele na Praia Grande, que
decidimos integrar com imagens do Sumol Nazaré Special Edition, que
este ano não foi tão especial como há dois anos, mas não deixou de ter
os seus momentos


FS:Como está a ser a tua estadia em Portuqal?
MS; Óptima! Genial! Adoro Portugal, podia vir viver para aqui,
é algo a ponderar, adoro tudo isto, as pessoas, o local, as ondas. Já vim
cá mais de dez vezes, e gostei de todas as visitas que fiz.

FS: Vivia mesmo cá?
MS: Não seria mesmo nada impossível...

FS: O que achas das ondas da Praia Grande?
MS: Desafiadoras, é uma onda complicada de ler, é muito volátil. Estou
aqui há uma semana a todos os dias e uma onda diferente. Como a areia
está constantemente a mudar de local, é difícil da identificar onde parte a
onda, com o 'bónus' de que as ondas estão sempre a vir o que torna
chegar ao outside ainda mais complicado.

FS: Qual o local em Portugal que gostas mais de surfar?

MS: Ericeira, é sempre lá que eu apanho as melhores ondas quando cá
estou, é uma vila muito engraçada. em 10 quilómetros de costa há uma
quantidade enorme de ondas magníficas que se podem surfar,

FS: Quais são as tuas ondas preferidas por lá?

MS: Nem sei dizer, há tantas, aquilo é mágico.

FS: Como é que começaste a surfar?

MS: Eu nasci a cresci no Havai, e é algo natural que se faz lá quando és
miúdo. O meu pai costumava levar-me para o mar ele ia para o pico,
deixava~me mais no inside, e ao longo dos meses, anos, fui passando do
inside até ao pico, como um ritual de iniciação, um processo, das ondas
mais pequenas às ondas maiores. Tem a ver também com uma
hierarquia natural, que faz parte de uma tradição no Havai. O meu pai foi
um dos primeiros a comprar um kit de bodyboard, e nos costumávamos
usar aquilo para surfar, o que era perfeito. O tipo de ondas que eu estava
a surfar, quando era miúdo, ajustavam-se muito mais a uma prancha de
bodyboard do que a qualquer outra prancha. Ondas secas, cavadas,
muito rasas, de reef.

FS: Há uma onda que to lembres que surfavas mais quando eras:
miúdo?

MS: Eu mudei~ma da Kauai para a Big Island quando era miúdo, as ondas
de reef em Big Island são muito mais rasas e sao mais curtas do que as de
Kauai. Ondas em que surfar em uma prancha de surf, não terá tanta piada.
As ondas de lá foram as que eu mais surfei quando era miúdo.

FS: O Havai é o local perfeito para se aprender a surfar?
MS: Sim. Está tudo muito acessível, não interessa onde vivas, estás
sempre perto de uma quantidade enorme de ondas que podes usar,
ondas de vários géneros. e ondas muito boas.

FS: Tinhas amigos para surfar contigo?

MS: Sim, tinha sempre amigos por perto, mas costumo surfar sozinho, e
quando era miúdo não era muito diferente. Apanhava uma boleia para a
praia e ficava por lá, foi um crescimento um pouco solitário dentro de
água por vezes. O meu pai estava lá de vez em quando, mas sempre fui
muito reservado e surfar sozinho nunca me incomodou.

FS: 0 que é que achas qua faz com que a tua carreira seja tão longa e
tão competitiva?

MS: Primeiro, a minha decisão de que surfar ondas grandes seria o
próximo passo, o que faz com que a minha carreira possa alongar-se,
surfar ondas grandes tem haver mais com experiência do que com
qualquer outro factor. Quando ara miúdo fiz muitos desportos, basebol,
ténis, e muitos outros desportos, mas parecem unidimensionais
comparando com a variedade, riqueza , e a dinâmica que o mar oferece
aos desportos de ondas. Está sempre tudo a mudar qualquer onda nos
oferece uma experiência diferente. É como ter o Tiger Woods a tentar
jogar golfe num green que se mexe, há uma espécie de uma beleza e de
algo tão extraordinário do oceano que não tem equiparação possível.
Isso faz com que haja uma constante vontade de experimentar coisas
novas, motivando qualquer atleta que tenha olhos para o ver.

FS: Estás a ficar mais novo? É que pareces estar a surfar melhor do
que nunca.

MS: Em alguns aspectos até estou. Estou a ficar em melhor forma do que
nunca, estou mais saudável e mais forte do que estava antes, não me
lembro de uma altura na minha carreira em que me sentisse tão bem
fisicamente, continuo a melhorar nesse campo. Mas é dificiI, há muitas
obrigações na sociedade quando cresces, quando ficas mais velho tens
uma família, tens um emprego ou uma empresa, e tens de ter a
capacidade da fornecer a tua familia, eles dependem de ti, quando estás
numa sociedade ela torna-te responsável . Isso toma o facto de tu estares
a trabalhar no teu corpo algo secundário.

FS: Mas no teu surf as melhorias vem de onde? Ou é só uma outra
perspectiva do teu desporto que tens vindo a apresentar.

MS: Para te dizer a verdade acho que há coisas no meu surf que se
mantiveram na mesma, eu tento melhorar noutras áreas, mas no final -
surfar bem uma onda é surfar bem uma onda, não há muito mais do que
isso. Desde que te mantenhas em contacto com o oceano, não te
deslumbres e tentes ser esperto isso vai ajudar-te numa competição.

FS: Tens cuidado com a tua alimentação e com o teu treino físico?
MS: Algum, comer bem, estar saudável e das principais características
que um surfista deve ter para ser bom.

FS: 0 que é que faz um bodyboard perfeito?
MS: Uma combinação de flutuação, com shape e flaxibilidade, isto ira
variar com a temperatura da água e outros factores... A combinação
perfeita pode fazer uma prancha magnifica para um atleta. e uma
prancha... não tão boa para outro.

FS: Alguma vez viste um tipo em cima de um bodyboard em que
dissesses, 'uau aquele tipo é genial'!

MS: Constantemente 0 top 16 é genial! Eu estou sempre a vê-los surfar
e não me canso um bocadinho, é incrível e estão sempre a surpreender-
me com o que conseguem fazer numa onda, as manobras, a velocidade,
a colocação... Os bodyboarders em particular são atletas incrivelmente
dinâmicos e pouco reconhecidos por isso.

FS: De todos os títulos que ganhaste há um que te seja mais
especial?

MS: Não há nenhum que me lembre que tenha ficado destacado na
minha cabeça como sendo o que gostei mais de ganhar. Gostei de
ganhar quando se formaram mesmo campeonatos, e quando não se
decidia tudo num só evento, mas diga-se que todas as vitórias em
Pipeline... vibrei muito com aquilo.

FS: E o campeonato que gostaste mais da ganhar, tens um evento
em especial que te tenha feito vibrar mais que os outros?

MS: Tenho, o último Em Arica, foi o culminar de um esforço de anos, um
'estou de volta' muito especial. Eu sabia que tinha surf para defrontar
qualquer atleta no mundo, ia não sabia se tinha a capacidade
competitiva para ganhar uma competição. É necessário um estofo
diferente, e Arica foi a confirmação de que estava no caminho certo.
Soube-me verdadeiramente bem aquela vitória.

FS: O bodysurling em Pipeline é algo que é um desafio. gostas dessa
competição?

MS: Adoro fazer bodysurf. Adoro competir aí, é um evento muito
relaxado, um evento que tem muito uma vertente de estar com os
amigos e a surfar ondas naquele local mágico, e senti-Io de uma forma
muito pura.

FS: Vais competir durante muito mais tempo, tens uma data em
mante para te retirares?

MS: Nem por isso, sinto que sou capaz de o fazer, agora até mais do que
antes, só porque estou mais organizado. Sinto que consigo competir
mais algum tempo, tenho sucesso nisso, divirto-me muito, divirto-me
mais quando estou a ganhar do que quando perco, mas é a vida (Risos,
ainda a lembrar-se da sua derrota à uns minutos atrás). Gosto de viajar,
mas não posso dedicar-me em exclusivo a viajar para competições, para
ganhar competições ou treinar para elas, e competir com gente que faz
exclusivamente isso é difícil. 0 truque é ser objectivo e organizado, saber
treinar quando é para treinar, saber trabalhar quando é para trabalhar
saber dar atenção à família quando é isso que eles necessitam. E no
fundo a famflia é o objectivo máximo.

FS: Quais são as mas ondas preferidas?

MS: Pipeline estará com certeza dentro delas...

FS: Como é que descreverias a relação que tens com ela?

MS: É uma onda perfeita, muito perigosa, talvez uma das mais perigosas
do mundo, e certamente a que ceifou mais vidas. Mas é uma onda que ia
me deu muito, que já me ofereceu tanto a nível de carreira muitos
sucessos, como a nível desportivo, só pelos momentos que me consigo
recordar.

FS: Um deles...

MS: A minha última surfada, é sempre especial surfar lá, e a última vez
que la surfei costumo lembrar-me como estava a onda.

FS: Cheia do gente?
MS: Por vezes é complicado surfar lá, é verdade, hoje em dia está com
demasiado crowd. Muito stress, há dias em que nem vale a pena olhar,
segue-se para outra onda qualquer, também extraordinária, mas sem o
stress da Pipe.

FS: O Jamie 0'Brien participou no último evento de Bodyboard em
Pipeline, como é que viste essa prestação?

MS: Olha, primeiro foi eu que convenci os organizadores a que o Jamie
participasse, gostei muito da atitude dele, precisava de um pouco mais
de confiança para conseguir passar uma bateria ali, contra aqueles
surfistas, mas acho-o completamente capaz de o fazer. Houve uma
grande polémica com isso, porque houve um atleta que aparentemente
perdeu o lugar com a entrada do Jamie, e isso foi um disparate, porque
esse atleta, que foi substituído pelo Jamie nas baterias, surfou uma
ronda depois, teve isenção. Era isso, ou era colocar o Jamie ia na
segunda ronda, dificultando-lhe a vida a ele. O Jamie é um homem da
água, e faz bem a todos os desportos ter gente que sabe representar o
seu desporto em qualquer plano, situação ou ambiente. Eu gosto de
pensar que sou assim, e o Jamie é com certeza um deles.

FS: A tua empresa continua e crescer, como vai o teu projecto?
MS: Está a correr bem, queremos crescer cá em Portugal, também com
o Alvim como representante. Estamos a tentar inovar nos nossos
produtos, e refrescar um pouco a nossa modalidade.

FS: Isso passa por novos shapes? Qual é o futuro da modalidade,
onde é que e modalidade tem de progredir? No shape, nas manobras.
na medietização do desporto?

MS: Na minha opinião o futuro do bodyboard não passa pelo shape, não
passa pelas manobras, nem pela mediatização do desporto, apesar de
serem todas muito importantes, como também as manobras e as
manobras em ondas grandes. Acho que neste momento o futuro passa
pela integração do desporto no ambiente, se calhar até sacrificar um
pouco as pranchas e tomar tudo mais amigável ambientalmente. 0
material usado para fazer pranchas é a preocupação neste momento,
algo que seja tão eficiente como as pranchas de hoje em dia e com uma
margem de progressão grande. Há já muitos modelos da Science que
contemplam isso, mas no futuro haverá muito mais. A responsabilidade
perante o ambiente começa também nas empresas, uma prancha tem
de deixar de fazer tão mal ao ambiente.

FS: Tow-in, é algo que também pertence ao futuro do bodyboard?
MS: Não sei. Estou completamente dividido em relação a isso. Eu não
acho que seja o futuro, de maneira nenhuma, será uma alternativa?
Odeio o barulho, o sabor que deixam na água, o cheiro, toda aquela
atitude dentro de água. .. acho que uma moto de água nunca deve estar
dentro de água a empurrar surfistas quando se consegue remar para a
onda. Há neste momento gente que esta a saltar aquele processo natural
de subir a sua zona de conforto que te contei no inicio, que fiz com o meu
pai, por causa das motos de água, e isso pode ser muito perigoso, porque
há uma maioria que não sabe o que está a fazer dentro de água, põe em
perigo os outros surfistas e a si mesmos. . .

FS: Mas e o lado positivo há ondas que não davam para surfar e
agora...

MS: Tem esse lado muito positivo, ganha-se acesso a ondas que por
serem grandes. ou por serem demasiado rápidas, ou por serem
impossíveis de remar, seja porque razão foi: agora consegue‹se
aproveitar essas ondas. Mas é como eu te digo, não se saber o que se
está a fazer na água com ondas grandes pode tomar uma tarde divertida
com uma mota de água, num pesadelo.

FS: Tens alguma mensagem para os teus fãs?

MS: Tenho, gostava que o mundo das ondas ficasse mais calmo. que as
pessoas aprendessem o que fazer antes de entrar na água. Não é difícil, é
só respeitarem o próximo.

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entrevista por: Miguel Bordalo, FS
última vez editado por Noisia s Terça Jan 12, 2010 1:21 pm, editado 1 vez no total
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Noisia
 
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Re: Entrevista Mike Stewart

Mensagempor alexR » Segunda Jan 11, 2010 10:56 am

O Rei...
alexR
 
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Re: Entrevista Mike Stewart

Mensagempor DavidC » Segunda Jan 11, 2010 11:54 am

Total respect!
DavidC
 
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Registado: Domingo Abr 26, 2009 2:14 pm

Re: Entrevista Mike Stewart

Mensagempor railtorail » Segunda Jan 11, 2010 6:46 pm

um modelo para todos nós, a todos os niveis! long live mike :)
railtorail
 
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Registado: Domingo Dez 21, 2008 2:20 am

Re: Entrevista Mike Stewart

Mensagempor Mr Charles » Terça Jan 12, 2010 10:35 am

Uma pequena correcção: o texto que aqui está reproduzido é da Freesurf sim senhora, mas a entrevista é do Miguel Bordalo, não da Lara Ramos. O seu a seu dono...

De resto, já tive o prazer de entrevistar o senhor Mike e subscrevo tudo o que diz o Miguel. Um senhor. E sim, entrevistar a malta do WCT é uma porra...
Mr Charles
 
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Re: Entrevista Mike Stewart

Mensagempor Noisia » Terça Jan 12, 2010 1:22 pm

Correcção feita, Mr Charles..obrigada.

É mesmo, parece que até o pessoal do nacional de surf, são todos uns narizes empinados eheh 8-)
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Noisia
 
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