1800 Km´s depois…

André Alves

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Não sei bem se os 1800 km´s são literais, mas se não são, andam lá perto. A ideia duma roadtrip surgiu numa outra viagem, na altura andávamos a explorar a costa oeste irlandesa quando definimos que as próximas ondas seriam num ambiente mais “quente”, apontamos para Marrocos ou França/Espanha.

A equipa estava completa, as datas definidas e o meio de transporte escolhido, uma auto-caravana gentilmente cedida pela Indie Campers. Afinamos o percurso e partimos ainda de noite do Porto, em direcção a Hossegor, onde chegaríamos oito ou nove horas depois, com direito a paragens apenas para reabastecer e esticar as pernas.

Fomos recebidos com chuva torrencial, temperatura baixa e vento onshore, tudo a correr mal portanto… Ainda para mais com amigos a apanharem boas ondas e temperaturas de Verão em Portugal. Aproveitamos para passear por Biarritz e descansar para o dia seguinte.
Felizmente ao segundo dia de viagem as previsões bateram certo e apanhamos La Graviere completamente tubular logo ao amanhecer e melhor ainda, sem o crowd que esperávamos.
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Depois desta primeira surfada chega-nos a notícia de que Les Cavaliers, praia mítica de Anglet, estava de gala. Arrumamos as malas e partimos em direcção aos pontões de Anglet. Estávamos em maré de sorte. Mal chegamos a primeira visão foi inesquecível, triângulos de dois metros a formarem-se no outside acabando a quebrar bem ocos na areia.

Apesar de uma valente surfada, a alteração da maré e o aumento do vento mudou de figura o estado do mar, pelo que, decidimos sair para recarregar baterias, comer qualquer coisa e esperar pelo final da tarde para voltar a entrar. Foi esta decisão, que mais tarde acabaria por alterar a nossa sorte.

Depois de almoçarmos, paramos a auto-caravana numa zona residencial, aproveitamos para dar um check no mar, que não demorou mais de 20 minutos e ao voltar tivemos a pior das surpresas, auto-caravana assaltada! O estrago foi puramente material, mas não menos desconcertante. Máquinas fotográficas, computador, ipad, objectivas e até um fato XL molhado (?!) não foram poupados pelos amigos do alheio.
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Por coincidência, o assalto acontece em frente a casa de uma família de emigrantes portugueses, que nos prestaram toda a ajuda necessária com a polícia e ainda nos acompanharam à esquadra local para ajudarem na papelada. (Obrigado por tudo Lena e restante família!) Em qualquer lugar do mundo, não há nada melhor que a entreajuda da comunidade portuguesa, essa sim, foi a grande lição a reter.

Com a moral das tropas em baixo e a inconsistência das praias francesas nova alteração de planos. Sair de França rapidamente em direcção a Mundaka, a pérola do País Basco.

Apesar de ser reconhecidamente uma das melhores ondas do mundo, é também uma das menos consistentes, mas as previsões e os registos deste Inverno davam-nos esperança, podíamos ter sorte. No percurso para Mundaka, tivemos a oportunidade de experimentar e conhecer outros picos bascos, passando por vilas portuárias de grande beleza, cuidadas, com sinais de riqueza típicos de uma zona com grande poder industrial.
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Chegamos a Mundaka ao cair da noite, mas ainda a tempo de ver as compridas linhas a entrar pela baía, optamos por um bom jantar e preparar para madrugar. Ao acordar, o cenário convencia, apesar de não ter muito tamanho, a onda quebrava perfeita ao longo da baía, mas o crowd, como é possível tanto crowd logo ao raiar do dia… Depois da árdua tarefa de estacionar uma auto-caravana numa pequena vila piscatória com cerca de 2000 habitantes corremos para o porto de mar! Que sonho!

A onda é tal e qual como se vê nos filmes, a entrada é feita pelo porto e depois são secções atrás de secções, as chamadas “leg-breakers” para os surfistas. Uma coisa que não esperava em Mundaka, o bom ambiente que se vivia na água, apesar do intenso crowd, havia um sentimento de partilha e boa disposição, que ainda tornava o sítio mais idílico.

Depois desta experiência e com as previsões novamente a piorar, era tempo de arrancar novamente, desta vez em direcção a paragens menos conhecidas. Sopelana, RokaPuta e por fim La Central, a esquerda mutante localizada ao lado duma antiga central nuclear e imortalizada num filme do Rui Ferreira, quando lançou a Respect Bodyboards.

A aventura avançava para o seu final, mas ainda tínhamos um trunfo para explorar, Andrín nas Astúrias, uma verdadeira onda para bodyboard, composta por uma série de wedges, formados devido a um enorme rochedo no meio do mar. Chegamos com tempestade e mar grande, partimos passado um dia, com um autêntico dia de Verão e mar a perder tamanho.
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A caminho de Portugal, ainda tivemos tempo para conhecer a famosa praia das Catedrais, na Corunha, onde muito perto parte uma slab chamada Rinlo. Mas a tempestade voltava e desta vez, não dava tréguas, era tempo de voltar a casa onde chegamos já a noite ia longa.

No final, não pude deixar de pensar em algo que nunca me tinha ocorrido, as variáveis que podem interferir, para o bem e para o mal numa viagem são imensas. Mas assim é a vida. E tal como na vida, só um grupo forte, disposto a atravessar as adversidades em conjunto é que as poderá superar. Por isso, o meu obrigado ao Grande, ao Canteiro e ao Xico pela camaradagem e companheirismo.
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