Agora, Antes ou Depois?

João Veiga, 3 de Março de 2017

Muitas vezes, especialmente em dias mais frustrantes devido ao crowd excessivo e/ou atitudes menos correctas de praticantes de bodyboard/surf, dou por mim a pensar se preferia que o paradigma do desporto fosse o mesmo de antigamente ou se prefiro que continue assim. Nenhum dos mundos é perfeito e se voltar atrás no tempo é utópico, pedir o melhor dos dois mundos ainda mais o é.
Quando comecei a fazer bodyboard, corria o ano de 1995 e tinha havido um grande boom na modalidade, estava na moda e todos os adolescentes queriam fazer surf ou bodyboard apesar de serem desportos ainda muito marginalizados e pouco inseridos na sociedade. Havia no entanto um grande respeito dentro de água, embora talvez imposto à força pelos locais, mas a verdade é que na maioria das praias havia ordem. Mas nem preciso de ir tão longe, recordo-me perfeitamente de quando vim viver para Lisboa há cerca de 10anos, secrets como a Shakira eram relativamente bem guardados.
Passado algum tempo de eu iniciar a prática do desporto que amo, a “febre passou” e só ficaram os mais resistentes, ou mais apaixonados…mas nem tudo eram rosas…se por um lado sabia muito bem surfar em paz muitas vezes só com os amigos, por outro existia uma série de contras…o equipamento era completamente arcaico, os fatos extremamente pesados e pouco flexíveis, não eram quentes, as pranchas além de serem na maior parte uns “barcos” em termos de shape tinham um material que deixava muito a desejar, ora demasiado pesado e flexível, ora demasiado leve e rijo, não havia telemóveis, nem internet e portanto benefícios como previsões, vídeos, fontes de informação, lojas etc eram quase escassos ou nulos. Lembro-me de ir de propósito à praia à noite para tentar perceber como estaria o mar de manhãzinha no dia seguinte, de esperar ansiosamente pelos programas semanais de desportos radicais, da Bodyboard Portugal para saber algo do que se passava ou se tinha passado há meses atrás, ou de ir à cabine telefónica avisar os amigos que naquele dia “valia a pena”. E quem não se lembra de quando apareceu um surf report com chamadas a pagar? Ver o mundial em Sintra em directo na RTP2 era uma revolução e as marés a dada altura já se conseguiam ver no teletexto…
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Imagem: Ben Severson e o seu estilo inconfundível

Apanhar ondas é sempre muito bom, mas tenho ideia que na altura era mais valorizado exactamente porque era conquistado com muito mais suor e esforço e também se tornava algo mais raro. Mas quando “o dia” chegava, era aproveitado até não se poder mais. Nunca me senti tão próximo do conceito de “soul surf” como nessa altura.
Alguns anos mais tarde, mais ou menos na altura da conhecida séria “Morangos com açúcar”, sentiu-se outra vez um grande boom na modalidade, mas desta vez foi diferente. Na altura a malta pensava que era moda e que ia passar novamente como sempre mas a verdade é que não passou. Os desportos de ondas dispararam e massificaram-se a uma escala enorme, exemplo disso são as escolas e outros negócios à volta que não param de proliferar. Felizmente ou infelizmente? É o que tento pensar pesando todos os prós e contras… Se Hoje em dia me sabe bem ver as previsões, as câmaras, os sites, os filmes, ter um bom material etc, não me sabe tão bem surfar em praias cheias de crowd onde a competição é tanta que se torna difícil haver respeito quer dentro quer fora de água. E se antigamente havia reacção (embora muitas vezes exagerada) ao desrespeito, hoje em dia no meu entender a nova geração aceita muito mais facilmente diversas situações menos agradáveis, quase de forma anárquica. Faz-me imensa confusão quando a fama é mais importante que o proveito e a procura de protagonismo é enorme em detrimento do feeling genuíno se é que me entendem. No entanto, depois de estar “deste lado” e aproveitar todas as comodidades da evolução, não me imagino a abdicar tão facilmente delas em prol duma perspectiva mais “soul”, embora ache que nesta altura fosse a que mais me divertia dentro de água, mas depois de conhecer o que conheci e de ter evoluído como bodyboarder e de consequentemente aumentar exponencialmente os parâmetros de boas ondas e de nível técnico a verdade é que me ia sentir num género de prisão. Há quem diga que a ignorância é uma bênção. Talvez o fosse neste caso se pudesse regressar ao passado. O ideal seria ter os dois mas não é possível. E agora o que é que está “certo ou errado”? Creio ser impossível haver certos ou errados neste tema. São alturas diferentes, contextos diferentes, quase mundos diferentes.
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Imagem: Ben Severson, Pat Caldwell e Jay Reale a teorizarem sobre shapes

Hoje em dia, o desporto evoluiu de tal forma que sem nos apercebermos disso já damos imensas coisas como garantidas, quase tudo está à distância de um clique, por exemplo quando uma câmara não funciona ou a previsão falha é uma chatice enorme. A nova geração não sonha o privilégio que é poder iniciar-se no desporto com dicas disponíveis em todo o lado. Mas também não sonham o que é surfar dias a fio ondas de gala só com os amigos. Por outro lado, nessa altura também não sonhávamos que poucos anos seria banal fazer um ARS ou que afinal um invert não passava duma grande baguete. O que é isso de projectar a prancha para a frente e ainda abrir as pernas?
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Imagem: Eppo a protagonizar um aéreo na altura revolucionário

Pessoalmente gosto mais da versão “roots” e underground do desporto, aliás não me importo muito de sermos um meio bem mais pequeno e e às vezes postos de lado. Claro que falo e penso assim porque não vivo do bodyboard, logo tenho a minha própria perspectiva talvez um pouco egoísta, mas a verdade é que fiz e faço este desporto para mim, nunca para os outros. Sempre fui avesso à cultura de massas por tudo o que de mau traz, mas na realidade, mesmo com poucos € caminhamos para a massificação. E isso chateia um velho saudosista como eu.
Resumindo a minha resposta é basicamente um “NIM”. Pois se conseguisse voltar ao passado e ao mesmo tempo fazer um reset à memória de toda a parte positiva da evolução que o desporto e eu sofremos optaria pelo regresso, mas sabendo e vivendo o que sei e vivi hoje muito provavelmente não voltaria pois já teria parâmetros demasiado altos para aqueles tempos. Espero que novos e velhos reflictam um pouco com este texto e tentem cada um à sua maneira tentar tornar o nosso mundo boogie num mundo melhor para todos.
E depois disto tudo? Onde vamos parar? Onde vamos preferir estar? Não faço a mínima ideia, mas enquanto houver disponibilidade cá estarei para viver e experienciar. É para isso que cá estamos. Mas sem nunca esquecer as minhas origens, de onde vim e de como fui ensinado e aplicar esses valores no mundo que me rodeia tanto quanto possível.
Gostaria apenas de finalizar com um agradecimento e dedicatória às pessoas que tiveram um maior papel e inspiração na minha iniciação (apenas falo na iniciação porque se fosse até agora a lista graças a Deus era infindável). São eles obviamente os meus pais que apesar de todos os receios inerentes fizeram os possíveis e impossíveis para me proporcionarem tudo, a Noemia “Nany” Dias que ajudou a reduzir os receios, o Paulo Dias grande companheiro, e o Pedro “Break” Lages o meu eterno ídolo e a pessoa que pela sua postura dentro e fora de água desde sempre mais me inspirou. Obrigado a todos.

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