Como fazer um Backflip – Análise do Rolamento à Retaguarda

Tó Cardoso, 22 de Janeiro de 2012

Introdução

No âmbito da disciplina de Sistemática das Actividades Físicas e Desportivas, do curso de Ciências de Desporto, foi-nos proposta a realização de um trabalho de análise sistemática de um movimento dentro de uma modalidade desportiva. Analisaremos um movimento de Bodyboard, nomeadamente, o backflip, mortal á retaguarda. Para uma melhor compreensão deste trabalho, diversos conceitos devem ser clarificados. Assim sendo, abordagem sistémica, que ao contrário da abordagem analítica engloba a totalidade dos elementos do sistema a estudar, bem como as suas interacções e interdependências. Trata-se da abordagem de um problema ou de uma série de acções de forma sequencial, uma coisa após a outra, pormenorizadamente, não deixando nada ao acaso nem esquecendo nenhum elemento que nela intervenha.

A Sistemática diz respeito a uma ciência que tende a organizar e classificar objectos, fenómenos ou acções específicas percebendo as lógicas externas ou internas e o meio que as envolve. Os termos são classificados com precisão e o seu fundamentalismo deve-se à forma como se relacionam uns com os outros, permitindo retirar as características ou particularidades que se devem considerar como qualitativas do movimento. É através da observação directa e análise sistemática da execução técnica que, de acordo com determinada resposta motora e consoante os objectivos, podemos intervir quer em termos de progressões, quer em termos de reajustes/modificações, de maneira a permitir que o indivíduo evolua e possa atingir o mais elevado nível de rendimento.

Caracterização da Tarefa

Tarefa: Backflip (Rolamento à retaguarda)
Objectivo Resultado: Rotação de 180º no eixo transversal na posição empranchada, com flexão das pernas sobre a coxa.
Objectivo Execução: Após impulsão, realiza-se uma hiper-extensão da cabeça e do tronco, com a elevação da bacia acima do nível dos ombros e com a flexão das pernas sobre a coxa.

Descrição da Tarefa

Fase de colocação:

-Acção motora: Inicialmente, o atleta encontra-se na horizontal. De seguida, realiza uma trajectória diagonal, de modo a conseguir o ângulo optimal de saída, na fase final de colocação. A onda empurra a prancha, sendo o atleta quem define o sentido do movimento; o atleta faz uma ligeira flexão do antebraço distal, enquanto o braço proximal (mais próximo da parede da onda), faz uma flexão de 90º; seguida de uma ligeira rotação do tronco na direcção da onda; olhar dirigido para a crista (lip) da onda, local de impulsão; as pernas e os pés mantêm uma posição estável (em linha com o corpo), de modo a controlarem o movimento ao longo da trajectória.
-Ritmo: A prancha tem velocidade horizontal e vertical equivalente á da onda.
-Mecânica: O centro de massa está por cima do centro de flutuação da prancha, para manter o equilíbrio e maximizar a velocidade.

 

Fase de Acção Principal:

 

-Acção Motora: Após uma impulsão de braços no lip (crista da onda), ou seja, a força combinada do atleta e do lip da onda, através da prancha, o atleta faz uma hiper-extensão da cabeça (olhando para o local de aterragem) e do tronco, elevando a bacia acima do nível dos ombros. As pernas flectem sobre a coxa, para ajudar na rotação; As mãos e os cotovelos mantêm-se sempre em contacto com a prancha, mantendo-a junto do corpo, o que vai facilitar o impacto na água (próxima fase).
-Ritmo: A prancha adquire velocidade horizontal antes da impulsão e vertical após a impulsão; existe um aumento da velocidade angular devido á hiper-extensão da cabeça e tronco. Deslocamento em fase aérea na horizontal com redução desta componente de velocidade;
-Mecânica: O centro de massa do sujeito sobe, mantendo-se em contacto sobre o centro da prancha, ou seja, há um acompanhamento do corpo no deslocamento da prancha, o que permite que o movimento seja simultâneo.

 

 

-Acção Motora: Acção de amortecimento com um aumento da flexão dos braços; o cotovelo proximal está em contacto com a prancha, o mais junto possível do tronco; contracção do abdominal para suavizar o impacto.
-Ritmo: Há uma redução das velocidades, sendo que a velocidade horizontal deixa de ser influente. A velocidade da prancha diminui com o impacto, pois trava o movimento do rolamento, quando esta contacta com a superfície da agua.
-Mecânica: O centro de massa está sobre o centro de flutuação da prancha e, no momento de impacto, a prancha deverá estar paralela á superfície da água.

 

Instrumentos

Componentes
Velocidade horizontal (o individuo acompanho o movimento da onda através da velocidade horizontal);
Velocidade vertical (serve para adquirir altitude na manobra e influencia o contacto na água e o consequente sucesso ou insucesso da manobra)
Velocidade Angular (permite o movimento de rotação do “Back Flip”)
Força da onda (serve para gerar velocidade e ajuda a retomar a posição inicial)
Força da gravidade (força contrária á velocidade vertical)
Impulsão (permite ganhar velocidade angular e vertical)
Ângulo de Saída (direcciona o movimento da manobra)
Ângulo de entrada na água (determina a conclusão da manobra)

Condicionantes
Peso do Atleta (quanto mais peso mais dificuldade em obter velocidade; influente na concretização da manobra, aquando o contacto com a água);
Características da onda (o sucesso da manobra depende da força, altura, tipo de onda);
Condições atmosféricas (a direcção do vento influencia o sucesso da manobra; a chuva e o sol estão associados à visão; a temperatura da água influencia o estado do corpo);
Prancha e fato (a qualidade do material também influencia a manobra; o tipo de material da prancha condiciona o amortecimento da queda e o fato serve para suavizar o impacto da manobra.)
Relação entre componentes
As forças e a impulsão e o ângulo de saída geram as velocidades
Quanto maior a velocidade vertical e a força da onda, maior a velocidade na fase de finalização.

Relação entre condicionantes
As características das ondas dependem das condições atmosféricas;
A prancha e o fato condicionam a mobilidade do atleta.
O tipo de material e tamanho da prancha têm de estar adequadas ao peso do atleta e características da onda;
O fato cria atrito no contacto com a prancha que facilita o controlo e continuidade da manobra;

Relações entre componentes e condicionantes
O peso do atleta influencia a velocidade vertical;
A força da onda depende da característica desta (por exemplo: forma e tamanho);
O vento influencia a velocidade e o ângulo de saída e entrada na água;)
A qualidade do material da prancha influencia a impulsão e recepção.

 

Aplicação Prática

-Reajustamentos: O principal reajustamento a ter em conta, para uma melhor execução da tarefa é o aperfeiçoamento do ângulo de saída. Este parâmetro tem grande influência na realização da manobra pois quanto mais vertical (próximo dos 90º) for o ângulo, mais perpendicular se torna o movimento em relação à onda. Apesar de se tornar mais difícil a sua execução, esta também é mais valorizada, a nível competitivo. Neste caso o atleta finaliza a fase de colocação com um ângulo de saída de 43,34o.

 

No início da fase de finalização o corpo deve estar mais alinhado com a prancha. Neste caso, como o atleta flectiu em demasia o braço proximal, em relação à onda, fazendo com que a prancha rodasse ligeiramente para a esquerda ficando o joelho distal fora da prancha.

-Progressões:
Mortal à retaguarda do mini-trampolim para o colchão;
Mortal à retaguarda na cama elástica;
Mortal à retaguarda na cama elástica com prancha;
Mortal à retaguarda com prancha para a piscina.

-Transferência para outros movimentos:

Os desportos onde esta tarefa pode ser semelhante são o BackFlip no Motocross e no BMX, pois são tarefas onde está presente o mortal à retaguarda e a utilização da pega no volante para a realização da impulsão.

 

Conclusão

Com este trabalho, conseguimos analisar uma tarefa desde a sua fase de colocação até á fase de finalização. Permitiu-nos uma maior compreensão das várias componentes e condicionantes inerentes a esta tarefa e perceber como cada uma pode influenciar o sucesso desta.

Achamos que esta análise foi muito enriquecedora, pois através desta podemos observar os aspectos mais importantes na realização do mortal á retaguarda. Pensamos que seria interessante que se pudessem realizar este tipo de observações com mais frequência, pois, possivelmente, daria aos treinadores a hipótese de detectar e corrigir alguns erros difíceis de observar no momento. Afinal acabam por ser muitos os pormenores que ocorrem em tão poucos segundos e que podem ditar a diferença entre o sucesso ou insucesso da manobra.

 

António Cardoso.

Universidade Técnica de Lisboa
Faculdade de Motricidade Humana
Sistemática das Actividades Físicas e Desportivas

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